terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Por incrível que isto possa parecer, sou descendente directo do Cricas e do Fura-Pitos

A minha avó forneceu-me, sem querer, provas objectivas e irrefutáveis de que a condição de macho alfa depende menos da genética do que da condição financeira de cada um. Isto porque, parece, o meu trisavô, avô dela, era conhecido em Avitoure (e redondezas) pela alcunha de “Cricas”, dado o gosto que o bom homem tinha pela prática de actividades que envolvessem a participação sensual do sexo oposto.

O “Cricas”, parece, vinha ao Porto e arranjava uma, ia a outro sítio qualquer e arranjava outra, ao ponto de ter desbaratado, nestas práticas, as propriedades familiares. Não sobrou rigorosamente nada que ainda pudesse ser utilizado pelas gerações seguintes. Mas foi, convenhamos, por uma boa causa.

Um outro “de Jesus” ainda conseguiu ser conhecido pela promissora alcunha de “Fura-Pitos”, mas tratava-se, aqui, de uma confusão atribuível ao duplo sentido de algumas palavras da língua portuguesa. Este Fura-Pitos, segundo a minha avó, ganhou a alcunha apenas por ter emigrado para o Brasil e ter lá arranjado emprego num matadouro de aves de aviário, cabendo-lhe a função de furar os pitos para pendurá-los nos ganchos metálicos que os transportavam na linha de desmontagem.

"Cricas", pelos visto, houve mesmo só um e, depois, perdeu-se essa mui nobre arte familiar. Assim se demonstra cabalmente, ao menos, que não há genética favorecida que resista ao convívio prolongado com o proletariado, nem espécies que evoluam perpetuamente - e nós, os "de Jesus", estamos inevitavelmente a declinar.