Os grandes dramas internacionais que me perdoem, mas não há choque de civilizações como aquele que acontece a bordo de um autocarro da STCP. Tão depressa se ouve um jovem chamar "azeiteirona" a uma moça pubescente, como alguém se queixa de dores nas cruzes e, logo a seguir, entra o primeiro jovem em vivo diálogo com a senhora que tem 82 anos, mas que, por pilhéria, tinha dito que ainda vai fazer 26 quando os moços se meteram com ela e lhe perguntaram a idade. É mesmo assim: uma hora está uma adolescente perguntando à outra "o qu'é que andas a fazer com essa língua?" e, logo a seguir, há uma mulher que tenta erguer-se na cadeira e se queixa "ai meu deus que não m'alevanto". Quer o acaso, que é o melhor amigo do cronista, que a dita mulher com problemas nas articulações circule acompanhada pela mãe, a qual, a despeito de ter 82 anos ou algo que o valha, se levanta de um só golpe e, numa recriminação muda, abre alas em direcção à saída, como se levasse fogo no traseiro. A achacada filha ainda comentará algo como "o pior é meu, não é teu", mas, pondo o mais azedo e ressentido dos olhares, lá acabará por movimentar o cu de modo a seguir a mãe, demonstrando-se, ao menos, que certos padecimentos não são hereditários e que, a algumas pessoas, faltou precisamente aquilo de que os jovens agora abundantemente falam, ou seja, de pôr a língua mesmo onde ela não seja imediatamente requisitada. Talvez a jovem em causa venha, num dia distante, a ter dores e tal, mas ela, ouvi-a eu com estes que a terra há-de comer, garantiu que as mulheres da respectiva família morrem todas com cem anos, excepto uma avó qualquer que foi assassinada em casa. Benditas, pois, as mulheres que assim procedem, mais, evidentemente, os homens que morrem cedo, que não há, senhores, cristão que aguente tanto assédio aos países húmidos e baixos.
Ainda é assim que se escreve "húmidos"?