Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011

Crónicas do autocarro#60



Tem havido greves nos transportes e, enquanto utente solidário, devo respeitar a luta de quem trabalha, cruzando também os braços, fechando os olhos e encerrando os ouvidos. Creio, na verdade, que mesmo os meus companheiros de viagem têm estado a cumprir uma rigorosa greve de zelo, abstendo-se de fornecer episódios pícaros que pudessem abrilhantar esta crónica. Fico, pois, limitado ao ambiente do metropolitano na hora de almoço, mas já se sabe que o metropolitano não é a mesma coisa que o autocarro, apesar daquela mulher que, um dia destes, reclamava que só queria mesmo era um papel para esfregar nas trombas ou na tabuleta de não sei quem. Dias há, com efeito, em que eu também desejo muito um papel ou, vá lá, um pau com pregos para esfregar na cara de não sei quem, mas a urbanidade impõe-se-me como uma trela e nunca me deixa ir mais longe do que a simples prática dos maus pensamentos. Laboro frequentemente em ideias azedas e creio que o faço, sobretudo, quando o autocarro vai mortiço, sem nada que me entretenha, e lá fora chove. Esta manhã, por exemplo, caía granizo e os vidros da viatura ficaram muito embaciados, transformando a cidade numa mancha desfocada. Diante de mim, com a cabeça quase pousada sobre o autocolante que sinaliza a saída de emergência, vinha uma moça preta dormitando. Tinha uma boca bonita e carnuda, e ficava bem de olhos fechados. Entretido a olhá-la, não tive nenhum pensamento ruim.