Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2011

Crónicas do autocarro#59



Diz-se, às vezes, que ter carro é semelhante a ter uma amante. Para um utente diário dos transportes públicos, a posse de um automóvel, não sendo uma completa inutilidade, constitui, de facto, uma despesa um pouco extravagante, como se, para desfrutar de uns contados momentos de real utilização fescenina, um indivíduo se visse obrigado a manter uma cortesã com gastos excessivos em peças e berloques, a qual, ainda por cima, só se contenta com o consumo de um líquido exótico e caro, seja champanhe francês ou gasolina sem chumbo. No autocarro, esta manhã, a mais habitual e conversadeira utente do veículo que passa às nove e dez vinha discordando de alguém que lhe tinha dito que os Pedros “são todos atabalhoados” e, acto contínuo, passou a discorrer sobre o carro do Pedro, o seu Pedro, que não é tão jeitoso, o carro, como era o anterior e, por isso, avaria demasiadas vezes. Assim lançada, lá atingiu a curiosa conclusão segundo a qual os automóveis “são piores do que as amantes” e não apenas equivalentes nos gastos que produzem, ou isto julgava eu, porque, logo a seguir, a cidadã me esclareceu sobre os reais motivos desta popular comparação. Amantes e automóveis, explicou ela, “em qualquer lado nos deixam ficar mal”. Talvez não seja nada mal visto. Hei-de ponderar gravemente sobre o assunto.