Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2011

Crónicas do autocarro#55



Espero que o clima de reflexão eleitoral tenha pousado, entretanto, sobre o bulício do autocarro, quanto mais não seja porque amanhã é sábado. Esta manhã, porém, o autocarro ainda vinha agitado, não exactamente por causa da campanha eleitoral em curso, mas, antes, devido à ventania que corria a cidade de nascente para poente e deixava tudo em desalinho. Uma das habituais utentes do 502 das nove e dez, por exemplo, comentava com a irmã que “aqueles miúdos assim com o cabelo mais extraviado” nem precisavam de se pentear; bastava-lhes sair à rua que o vento tratava do assunto. Logo adiante, choveram sobre o autocarro umas bolinhas vegetais que o vento arrancava das árvores da Rotunda da Boavista e a irmã da utente achou que estávamos a ser atacados. E por aí adiante. Mas nenhum malefício da ventania poderá explicar o homem gordo que viajava de pé, a meio do autocarro, com a sua rotunda barriga muito empinada, o seu brinco na orelha, os seus vários anéis na mão esquerda, os seus sapatos de biqueira fina e os seus auscultadores nas orelhas. Lá ia ele escutando a sua musiquinha a mexendo os lábios, fechando os olhinhos nos agudos e sacudindo a cabeça como se estivesse numa audição dos Ídolos, absolutamente empenhado na cantoria. Pareceu-me, ao longe e pelos meneios do bom homem, que ele ia a ouvir Beyoncé, mas, quando me aproximei para sair na paragem seguinte, percebi que o batoque murmurava palavras que soavam vagamente italianas. O azeiteiro, afinal, devia estar só a ouvir a Laura Pausini.