Domingo, 16 de Janeiro de 2011

Crónicas do autocarro#54



Existe, entre as pessoas que tomam banho diariamente, um preconceito segundo o qual o ambiente olfactivo dos autocarros padece com a falta de higiene das camadas populares. Os juízos apriorísticos, porém, são que são e eu prefiro não dizer que sim nem que não, na exacta medida em que ando de autocarro e nem por isso deixo de praticar as ablações matinais com sabonete e champô, perfumando-me até um pouco antes de enfrentar cada dia. Ainda que o faça apenas para ajudar a disfarçar o cheiro a merda do mundo, faço-o - e preparo-me para o que der e vier.

Foi, pois, com certo agrado que, um dia destes, senti a dado passo, dentro do autocarro, o odor bom e saudável do café acabado de moer. Estranhei, mas imaginei que o cheiro se estaria escapando da carteira de alguma das utentes, provavelmente vinda da Casa Chinesa ou de algum dos velhos bazares da Baixa, desses com sólidas prateleiras de madeira pintada. Logo a seguir, porém, pareceu-me que percorria o ar, isso sim, um cheiro a pão torrado, o qual, um instante depois, se tinha já transformado num evidente olor a frango assado.

Ante a improbabilidade de estar a decorrer no autocarro um piquenique sem que eu tivesse dado por nada, conclui que devia estar padecendo de alguma forma peculiar de alucinação olfactiva. Só depois, pensando nisso, me ocorreu que um distúrbio destes pode perfeitamente manifestar-se ao nível dos outros sentidos, pelo que me vejo forçado a admitir que o episódio do tomate, do boné e do guarda-chuva vermelhos, que aqui narrei há dias, pode muito bem ter resultado de uma alteração das funções cognitivas. Tudo o que aqui conto, aliás, pode ser o resultado de uma mente distorcida e doente, de surtos psiquiátricos episódicos, eu sei lá. Talvez, afinal, o autocarro nem sequer exista e eu seja, enquanto passageiro, um puro engano – um equívoco a precisar de voltar a ler René Descartes.

Escrevi, contudo, "voltar a ler", pelo que me ocorre que tal formulação implica que já antes, em algum momento, tenha lido René Descartes. E, se o li, talvez, afinal, eu exista. Hei-de voltar a pensar no assunto.