Ignoro se serei capaz de manter este espaço de reflexão (chamemos-lhe assim) durante muito mais tempo, mas estou certo de que a minha missão de utente e cronista dos transportes públicos não ficará concluída enquanto não tiver tido tempo para embarcar no autocarro 703, aquele que parte da Baixa e, depois, percorre ruas e ruelas em direcção a um sítio chamado Sonhos, que eu não sei onde fica e, por isso, imagino como uma espécie de País das Maravilhas, com fontenários de onde jorra o mel e unicórnios correndo por pastagens verdíssimas, entre árvores de pasmar. Ocultas pelas ramagens haverá ninfas espreitando a chegada dos forasteiros, e elas estarão armadas de arcos e setas, como cupidos, escolhendo alvos entre os mortais recém-chegados, flechando-os para a prática de pecados carnais e outras delícias, vinhos e ovos-moles, moquecas e petiscos diversos. O utente dos transportes públicos tem algo de poeta e de sonhador, mas é, ao mesmo tempo, um sujeito pragmático e habituado ao duro recontro com a aridez da realidade. Sei perfeitamente, por isso, que Sonhos há-de ser um sítio em Ermesinde ou em Valongo, talvez até em Rio Tinto ou em Fânzeres, e que muito provavelmente lá não haverá lugar para nenhum tipo de devaneio (ainda que as gajas de Ermesinde, já se sabe...). É por isso que continuo a adiar a viagem – para poder continuar a sonhar.
Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011
Crónicas do autocarro#52
Ignoro se serei capaz de manter este espaço de reflexão (chamemos-lhe assim) durante muito mais tempo, mas estou certo de que a minha missão de utente e cronista dos transportes públicos não ficará concluída enquanto não tiver tido tempo para embarcar no autocarro 703, aquele que parte da Baixa e, depois, percorre ruas e ruelas em direcção a um sítio chamado Sonhos, que eu não sei onde fica e, por isso, imagino como uma espécie de País das Maravilhas, com fontenários de onde jorra o mel e unicórnios correndo por pastagens verdíssimas, entre árvores de pasmar. Ocultas pelas ramagens haverá ninfas espreitando a chegada dos forasteiros, e elas estarão armadas de arcos e setas, como cupidos, escolhendo alvos entre os mortais recém-chegados, flechando-os para a prática de pecados carnais e outras delícias, vinhos e ovos-moles, moquecas e petiscos diversos. O utente dos transportes públicos tem algo de poeta e de sonhador, mas é, ao mesmo tempo, um sujeito pragmático e habituado ao duro recontro com a aridez da realidade. Sei perfeitamente, por isso, que Sonhos há-de ser um sítio em Ermesinde ou em Valongo, talvez até em Rio Tinto ou em Fânzeres, e que muito provavelmente lá não haverá lugar para nenhum tipo de devaneio (ainda que as gajas de Ermesinde, já se sabe...). É por isso que continuo a adiar a viagem – para poder continuar a sonhar.