"Os dias — escreveu o Gonçalo M. Tavares — são, em geral, móveis, um autocarro que não pára". Ao contrário dos dias, acrescento eu, os autocarros vêem-se, porém, obrigados a fazer várias paragens: as regulamentares, as forçadas pelos semáforos vermelhos e, às vezes, aquelas que são impostas pelos engarrafamentos do trânsito. Esta tarde, e como muito bem assinalou uma utente do lado bom da força, o trânsito pôs-se ainda mais aborrecido por causa de um outro autocarro parado. No caso, tratava-se do autocarro do Benfica estacionado na Avenida da Boavista. Haverá contrariedade mais desagradável? A cidadã parecia achar que não, até porque, disse ela, já tinha levado com aquilo nas trombas logo de manhã. A cena repetia-se agora ao final da tarde, desagradável como um cadáver em contramão rodeado de mirones, com mais polícia do que o presidente da república — e nós a pagar aquilo tudo, protestava a utente. Estava, pois, ali parado o autocarro do Benfica, ao contrário dos dias geralmente móveis e, quiçá, reclamando uma bola de golfe ou, vá lá, um ovo podre. Assim, e pela contrariedade que a mulher demonstrava, o autocarro parado, para lá das declinações filosóficas que possa inspirar, pode também ser um excelente local para a captação de novos talentos para os super-dragões.
Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011
Crónica do autocarro#56
"Os dias — escreveu o Gonçalo M. Tavares — são, em geral, móveis, um autocarro que não pára". Ao contrário dos dias, acrescento eu, os autocarros vêem-se, porém, obrigados a fazer várias paragens: as regulamentares, as forçadas pelos semáforos vermelhos e, às vezes, aquelas que são impostas pelos engarrafamentos do trânsito. Esta tarde, e como muito bem assinalou uma utente do lado bom da força, o trânsito pôs-se ainda mais aborrecido por causa de um outro autocarro parado. No caso, tratava-se do autocarro do Benfica estacionado na Avenida da Boavista. Haverá contrariedade mais desagradável? A cidadã parecia achar que não, até porque, disse ela, já tinha levado com aquilo nas trombas logo de manhã. A cena repetia-se agora ao final da tarde, desagradável como um cadáver em contramão rodeado de mirones, com mais polícia do que o presidente da república — e nós a pagar aquilo tudo, protestava a utente. Estava, pois, ali parado o autocarro do Benfica, ao contrário dos dias geralmente móveis e, quiçá, reclamando uma bola de golfe ou, vá lá, um ovo podre. Assim, e pela contrariedade que a mulher demonstrava, o autocarro parado, para lá das declinações filosóficas que possa inspirar, pode também ser um excelente local para a captação de novos talentos para os super-dragões.