A Cristina confessava, na semana passada, a falta que sente das rapaziadas nos autocarros durante o período das férias escolares, e boas razões deve ter para isso. Os meus horários nos transportes públicos são menos animados pela vivacidade dos moços e das moças pubescentes, mas, graças aos hábitos que os adolescentes adquirem durante a interrupção lectiva, pude ontem ter uma ideia de como hão-de ser animadas e vivazes as viagens daqueles que utilizam os transportes públicos em horário estudantil. Seguia no autocarro, ao fim da tarde, um pequeno grupo de moças espigadotas, as quais trocaram pérolas como “vê se arranjas um gajo para ti para não andares atrás do meu”, e outras que, entretanto, não pude ouvir convenientemente. Devia, com efeito, ter dado mais atenção à conversa delas, para aqui poder dar devida nota dos factos, mas a Vanessa começou a querer comportar-se como se também ainda tivesse quinze anos e eu vi-me obrigado a tentar sossegá-la, uma vez que me ocorre sempre uma frase que li há muitos anos, segundo a qual o poder dos repórteres fotográficos reside no facto de conseguirem ser invisíveis. Ao cronista do autocarro, parece-me, cabe cultivar, ao menos, a mesma virtude: ser discreto para observar melhor.
Terça-feira, 28 de Dezembro de 2010
Crónicas do autocarro#49
A Cristina confessava, na semana passada, a falta que sente das rapaziadas nos autocarros durante o período das férias escolares, e boas razões deve ter para isso. Os meus horários nos transportes públicos são menos animados pela vivacidade dos moços e das moças pubescentes, mas, graças aos hábitos que os adolescentes adquirem durante a interrupção lectiva, pude ontem ter uma ideia de como hão-de ser animadas e vivazes as viagens daqueles que utilizam os transportes públicos em horário estudantil. Seguia no autocarro, ao fim da tarde, um pequeno grupo de moças espigadotas, as quais trocaram pérolas como “vê se arranjas um gajo para ti para não andares atrás do meu”, e outras que, entretanto, não pude ouvir convenientemente. Devia, com efeito, ter dado mais atenção à conversa delas, para aqui poder dar devida nota dos factos, mas a Vanessa começou a querer comportar-se como se também ainda tivesse quinze anos e eu vi-me obrigado a tentar sossegá-la, uma vez que me ocorre sempre uma frase que li há muitos anos, segundo a qual o poder dos repórteres fotográficos reside no facto de conseguirem ser invisíveis. Ao cronista do autocarro, parece-me, cabe cultivar, ao menos, a mesma virtude: ser discreto para observar melhor.