Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010

Crónicas do autocarro#48



A mulher vinha avançando pelo corredor do autocarro, resoluta, mas, de repente, deteve-se e ficou parada, tentando equilibrar-se sem se agarrar a nada. O autocarro balançou, todos os que viajavam em pé se firmaram como puderam, deitando as mãos às barras metálicas — todos excepto a mulher baixinha, que persistiu no seu estranho equilibrismo. Ao meu lado, um cavalheiro deu um passo atrás e arqueou o braço, para que a mulher se agarrasse ou seguisse o seu caminho, mas ela sacudiu a cabeça e disse "não, eu é que não passo por baixo", por baixo do braço do simpático cavalheiro, queria ela dizer. Ele chegou-se à frente e, depois, ela contornou-o pelas costas, presumo que aliviada por se ter livrado da pesada maldição que sobre ela cairia se acaso tivesse passado sob o maléfico arco que o braço do homem formava. Eu desejei que ela tivesse caído e partido um ou dois dentes. Ou talvez não o tenha desejado. Limitei-me a pensar nisso, que as pessoas supersticiosas deviam ser castigadas pelos seus medos parvos, para que se deixassem de merdas.