Não devia, muito provavelmente, dedicar-me agora a este assunto, sobretudo tendo em conta o estado em que me encontro, mas não consigo que me saia da cabeça a conversa daquelas duas mulheres esta manhã. Cumprimentaram-se e, logo a seguir, a que ia sair na paragem seguinte perguntou
— E a tua mãe?
— Está bem — respondeu a outra.
— E o teu pai?
— O meu pai faleceu?
— A sério? Quando?
— Dezanove?
— Por isso é que não te tenho visto...
— Olha... Acabou-se o sofrimento.
Ouvi a conversa procurando disfarçar a atenção de que necessito para ser capaz de me lembrar de alguma coisa passados cinco minutos. O sofrimento do falecido até pode ter acabado no dia dezanove, mas o meu constrangimento estava apenas a começar. Suponho que o constrangimento da primeira mulher também, mas esta é uma suposição muito arriscada. Nunca se sabe em que é que a malta do autocarro está a pensar. Depois, passado um bocado, tive que ir ver a neve e, aí sim, pude conversar com gente — gente que diz "lavoira" e que diz "mántimentos" e que diz "não veo" quando quer dizer "não veio". Gosto de gente assim. Mas, infelizmente, estas pessoas não andam de autocarro.