O autocarro está aborrecido. Tenho, por isso, aproveitado as viagens para ler, mas suponho que os eventuais leitores deste blogue estejam fartos de textos que, de uma forma ou de outra, sempre acabam por falar de livros. Ocorre-me inclusivamente que os mais alérgicos a esta temática hão-de estar considerando que este blogue está pelo menos tão aborrecido como um autocarro no qual não acontece nada. Consciente destes factos, pareceu-me, ainda assim, que o remédio para o ramerrão do 502 poderia perfeitamente passar pela literatura. Imaginei, por exemplo, que os homenzinhos do livro de Millás se desprendiam das páginas e, por um acto de puro assombro, invadiam o autocarro, beliscando os passageiros, provocando-nos comichões, fazendo-nos cócegas e contando-nos ao ouvido histórias muito indecentes que nos fizessem corar muito e rir como as pessoas um pouco tontas. Creio mesmo que me seria agradável transitar entre um ponto e outro da cidade levando sobre o ombro, sentado, um minúsculo homem de fato cinzento, gravata preta e chapéu de feltro, ágil como uma lagartixa, que comentaria aquilo que visse de um modo muito espirituoso, como um pequeno sátiro. É, pois, como vêem: já estive mais longe do internamento no Magalhães Lemos.
Terça-feira, 30 de Novembro de 2010
Crónicas do autocarro#45
O autocarro está aborrecido. Tenho, por isso, aproveitado as viagens para ler, mas suponho que os eventuais leitores deste blogue estejam fartos de textos que, de uma forma ou de outra, sempre acabam por falar de livros. Ocorre-me inclusivamente que os mais alérgicos a esta temática hão-de estar considerando que este blogue está pelo menos tão aborrecido como um autocarro no qual não acontece nada. Consciente destes factos, pareceu-me, ainda assim, que o remédio para o ramerrão do 502 poderia perfeitamente passar pela literatura. Imaginei, por exemplo, que os homenzinhos do livro de Millás se desprendiam das páginas e, por um acto de puro assombro, invadiam o autocarro, beliscando os passageiros, provocando-nos comichões, fazendo-nos cócegas e contando-nos ao ouvido histórias muito indecentes que nos fizessem corar muito e rir como as pessoas um pouco tontas. Creio mesmo que me seria agradável transitar entre um ponto e outro da cidade levando sobre o ombro, sentado, um minúsculo homem de fato cinzento, gravata preta e chapéu de feltro, ágil como uma lagartixa, que comentaria aquilo que visse de um modo muito espirituoso, como um pequeno sátiro. É, pois, como vêem: já estive mais longe do internamento no Magalhães Lemos.