Como não sei o nome da moça, chamar-lhe-ei Clarineide. É perfeitamente possível, aliás, que ela se chame mesmo Clarineide. Viaja no autocarro pela manhã e, mesmo que não se tenha vontade nenhuma de espreitar para dentro da vida dos outros, fica-se sempre a saber alguma coisa sobre a vida que Clarineide leva. Ela entra no autocarro e, regular como um pêndulo, pega no telemóvel e liga para dona Alice. Como é a única pessoa que fala no autocarro, ouve-se perfeitamente o que Clarineide diz. Tem a voz muito aguda, irritantemente aguda, e uma gargalhada metálica e desagradável. Para que se fique com uma ideia mais próxima da realidade, eu estava convencido de que Clarineide era uma brasileira bonita, mulata e peituda, até ao momento em que a ouvi falar e sorrir. Depois mudei de ideias (e decidi que ela tem que ter um nome pelo menos tão feio como Clarineide). Ao telefone, Clarineide diz muitas vezes “deus milivri”. Está em Portugal para tomar conta de uma velhota doente. Vigia-a durante a noite e, às nove da manhã, apanha o autocarro a caminho de um ginásio na Baixa. Tem lá as suas histórias com uns homens que, pelos vistos, são um pouco “cafagéstis” e, um dia destes, Clarineide foi à médica, a qual lhe perguntou se, por acaso, não estará grávida. Grávida? “Deus milivri!”.
Quarta-feira, 17 de Novembro de 2010
Crónicas do autocarro#44
Como não sei o nome da moça, chamar-lhe-ei Clarineide. É perfeitamente possível, aliás, que ela se chame mesmo Clarineide. Viaja no autocarro pela manhã e, mesmo que não se tenha vontade nenhuma de espreitar para dentro da vida dos outros, fica-se sempre a saber alguma coisa sobre a vida que Clarineide leva. Ela entra no autocarro e, regular como um pêndulo, pega no telemóvel e liga para dona Alice. Como é a única pessoa que fala no autocarro, ouve-se perfeitamente o que Clarineide diz. Tem a voz muito aguda, irritantemente aguda, e uma gargalhada metálica e desagradável. Para que se fique com uma ideia mais próxima da realidade, eu estava convencido de que Clarineide era uma brasileira bonita, mulata e peituda, até ao momento em que a ouvi falar e sorrir. Depois mudei de ideias (e decidi que ela tem que ter um nome pelo menos tão feio como Clarineide). Ao telefone, Clarineide diz muitas vezes “deus milivri”. Está em Portugal para tomar conta de uma velhota doente. Vigia-a durante a noite e, às nove da manhã, apanha o autocarro a caminho de um ginásio na Baixa. Tem lá as suas histórias com uns homens que, pelos vistos, são um pouco “cafagéstis” e, um dia destes, Clarineide foi à médica, a qual lhe perguntou se, por acaso, não estará grávida. Grávida? “Deus milivri!”.