Vim esta manhã à escuta da conversa das três mulheres que, pelos vistos, se dedicam ao negócio das limpezas de domicílios. Uma delas contava que tinha a seu cargo uma igreja da Baixa, que aspirava o templo todos os dias e que tinha limpo os santos todos, o que, dito assim, pode não ter muita graça, mas, se se pensar bem, chega a ser hilariante: uma mulher limpando os santos todos, passando o pano pelas pernas nuas acima das sandálias de couro, sacudindo as vestes, cofiando-lhes a barba e, quem sabe, despertando-os para a vida como acontecia naquele vídeoclipe blasfemo da Madonna, o santo abandonando o altar e mergulhando no decote da cantora. Vinha, pois, entretido, a escutar a conversa das mulheres e a imaginar coisas bastante hereges quando se sentou ao meu lado uma dessas velhas que cheiram muito a urina. É impressionante como os sentidos se baralham em situações assim: não me lembro de ter escutado mais nada depois disso; vim apenas concentrado em conter a respiração.
Quarta-feira, 26 de Maio de 2010
Crónicas do autocarro#32
Vim esta manhã à escuta da conversa das três mulheres que, pelos vistos, se dedicam ao negócio das limpezas de domicílios. Uma delas contava que tinha a seu cargo uma igreja da Baixa, que aspirava o templo todos os dias e que tinha limpo os santos todos, o que, dito assim, pode não ter muita graça, mas, se se pensar bem, chega a ser hilariante: uma mulher limpando os santos todos, passando o pano pelas pernas nuas acima das sandálias de couro, sacudindo as vestes, cofiando-lhes a barba e, quem sabe, despertando-os para a vida como acontecia naquele vídeoclipe blasfemo da Madonna, o santo abandonando o altar e mergulhando no decote da cantora. Vinha, pois, entretido, a escutar a conversa das mulheres e a imaginar coisas bastante hereges quando se sentou ao meu lado uma dessas velhas que cheiram muito a urina. É impressionante como os sentidos se baralham em situações assim: não me lembro de ter escutado mais nada depois disso; vim apenas concentrado em conter a respiração.