A transição do exterior muito iluminado pelo sol maravilhoso de Maio para o interior sombrio do autocarro provoca, pelos vistos, uma forma de cegueira momentânea, da qual nunca me tinha apercebido. Mas esta manhã a mulher loura entrou no autocarro e levantou imediatamente a voz para perguntar, lá para o fundo, se a irmã da Branca também estava a bordo, ao que a Branca e a irmã responderam num tom de voz suficientemente esclarecedor. Depois a mulher loura sentou-se com as outras e perguntou à irmã da Branca pelas bolachas de chocolate que ela prometera levar, mas a irmã da Branca não se lembrava de nada e levou um raspanete como deve ser, que não se faz a uma mulher trabalhadeira obrigá-la a andar assim a perder tempo a entrar e sair de autocarros para, afinal, não encontrar em ordem as bolachas de chocolate que, à tarde, deviam ser entregues noutro sítio qualquer que não percebi bem. O resto dos passageiros, como eu, ficaram em silêncio, dissimulando e fingindo olhar para outro lado e dar atenção a outras coisas, mas estávamos todos concentrados era na conversa das duas mulheres, o que nem sequer era difícil, pois escutava-se perfeitamente e até mesmo se não se quisesse. Elas, por outro lado, pareciam satisfeitas por serem escutadas, tanto que, quando a loura saiu do autocarro, a irmã da Branca ainda explicou a quem a quis ouvir que não trouxe as bolachas por causa do calor da manhã. Talvez traga as bolachas à hora de almoço. Pela fresquinha.
Sexta-feira, 21 de Maio de 2010
Crónicas do autocarro#30
A transição do exterior muito iluminado pelo sol maravilhoso de Maio para o interior sombrio do autocarro provoca, pelos vistos, uma forma de cegueira momentânea, da qual nunca me tinha apercebido. Mas esta manhã a mulher loura entrou no autocarro e levantou imediatamente a voz para perguntar, lá para o fundo, se a irmã da Branca também estava a bordo, ao que a Branca e a irmã responderam num tom de voz suficientemente esclarecedor. Depois a mulher loura sentou-se com as outras e perguntou à irmã da Branca pelas bolachas de chocolate que ela prometera levar, mas a irmã da Branca não se lembrava de nada e levou um raspanete como deve ser, que não se faz a uma mulher trabalhadeira obrigá-la a andar assim a perder tempo a entrar e sair de autocarros para, afinal, não encontrar em ordem as bolachas de chocolate que, à tarde, deviam ser entregues noutro sítio qualquer que não percebi bem. O resto dos passageiros, como eu, ficaram em silêncio, dissimulando e fingindo olhar para outro lado e dar atenção a outras coisas, mas estávamos todos concentrados era na conversa das duas mulheres, o que nem sequer era difícil, pois escutava-se perfeitamente e até mesmo se não se quisesse. Elas, por outro lado, pareciam satisfeitas por serem escutadas, tanto que, quando a loura saiu do autocarro, a irmã da Branca ainda explicou a quem a quis ouvir que não trouxe as bolachas por causa do calor da manhã. Talvez traga as bolachas à hora de almoço. Pela fresquinha.