Constato, com inevitável modéstia, que não possuo talento suficiente para descrever os rostos mais emblemáticos dos utentes do autocarro. Olho para eles, analiso-os, mas possuem traços tão exagerados que, parece-me, qualquer tentativa para descrevê-los se transformaria numa caricatura grotesca. Pior: transformaria em caricaturas grotescas um conjunto de pessoas que, bem vistas as coisas, têm apenas vidas normais, regulares, comuns e anónimas, sem nada de grotesco nelas. Se, por exemplo, uma senhora tem umas bochechas demasiado redondas e pesadas, pendendo-lhe da cara, entristecendo-lhe o rosto ainda marcado por uma boca pequena e por um nariz afilado, nada me autoriza, na verdade, a utilizar expressões como “demasiado” ou “boca pequena”. Talvez, com efeito, a minha boca seja demasiado grande e carnuda, e as minhas bochechas sem graça nenhuma, inexpressivas, sejam um péssimo termo de comparação. Calhando, a mulher que eu descreveria naqueles termos é apenas mimosa e carismática. Não explicarei, por isso, como é o casal que, ao fim da tarde, invariavelmente regressa a casa no autocarro 502. Vão calados e quietos de um modo que me inquieta e diverte, pois olham para as pessoas que entram a saem do autocarro como se as estudassem para, depois, escreverem sobre elas, mas, ao mesmo tempo, têm um ar ausente e vago como o dos loucos. É a mulher que faz as despesas das raras conversas que mantêm e, quando fala, diz coisas bastante estranhas, como “ontem fui ao café e estavam lá uns pretos que estavam só a falar e não se calavam, que nojo que aquilo me estava a meter”. Hei-de, por isso, evitar outras distracções – um livro para ler, um raio de sol incidindo nas fachadas – e ficar mais atento ao que diz aquela mulher. Talvez seja um oráculo; um oráculo louco e racista.
Quarta-feira, 5 de Maio de 2010
Crónicas do autocarro#28
Constato, com inevitável modéstia, que não possuo talento suficiente para descrever os rostos mais emblemáticos dos utentes do autocarro. Olho para eles, analiso-os, mas possuem traços tão exagerados que, parece-me, qualquer tentativa para descrevê-los se transformaria numa caricatura grotesca. Pior: transformaria em caricaturas grotescas um conjunto de pessoas que, bem vistas as coisas, têm apenas vidas normais, regulares, comuns e anónimas, sem nada de grotesco nelas. Se, por exemplo, uma senhora tem umas bochechas demasiado redondas e pesadas, pendendo-lhe da cara, entristecendo-lhe o rosto ainda marcado por uma boca pequena e por um nariz afilado, nada me autoriza, na verdade, a utilizar expressões como “demasiado” ou “boca pequena”. Talvez, com efeito, a minha boca seja demasiado grande e carnuda, e as minhas bochechas sem graça nenhuma, inexpressivas, sejam um péssimo termo de comparação. Calhando, a mulher que eu descreveria naqueles termos é apenas mimosa e carismática. Não explicarei, por isso, como é o casal que, ao fim da tarde, invariavelmente regressa a casa no autocarro 502. Vão calados e quietos de um modo que me inquieta e diverte, pois olham para as pessoas que entram a saem do autocarro como se as estudassem para, depois, escreverem sobre elas, mas, ao mesmo tempo, têm um ar ausente e vago como o dos loucos. É a mulher que faz as despesas das raras conversas que mantêm e, quando fala, diz coisas bastante estranhas, como “ontem fui ao café e estavam lá uns pretos que estavam só a falar e não se calavam, que nojo que aquilo me estava a meter”. Hei-de, por isso, evitar outras distracções – um livro para ler, um raio de sol incidindo nas fachadas – e ficar mais atento ao que diz aquela mulher. Talvez seja um oráculo; um oráculo louco e racista.