Quinta-feira, 1 de Abril de 2010

Crónicas do autocarro#23

À tarde, o autocarro vem cheio de cabelos grisalhos, boinas, óculos muito graduados, carteiras velhas e casacos fora de moda. Olha-se à volta e quase não se vê ninguém com menos de 60 anos de idade. Olha-se à volta e depara-se com uma imagem de grande melancolia: os rostos enrugados são quase inexpressivos, como estátuas de cera derretendo lentamente. Nos dedos anelares acumulam-se alianças, pelos menos duas, uma própria, outra dos companheiros mortos. A pele destes passageiros tem uma tonalidade diferente, mais pálida e mortiça, mordida por manchas. São velhos, são sozinhos e talvez já comam muito pouco. A reforma vai quase toda para os medicamentos. Não teriam como fazer passar o tempo que lhes resta se não fosse o passe social e os passeios nos transportes públicos.