Quinta-feira, 18 de Março de 2010
Crónicas do autocarro#21
Quando me atraso um pouco e apanho o 502 que passa às 9h10, é certo e sabido que encontrarei a amarga mulher que já nem para companhia serve. Tem uma tatuagem no flanco esquerdo do pescoço e o rosto macilento. Vem sempre com uma irmã mais nova e mais gorda e fala bastante alto, discorrendo sobre os mais diversos assuntos. Gosto de ouvi-la falar, pois tenho a sensação de que o povo todo se expressa pela voz desta mulher, espécie de porta-voz dos anseios e dos dramas da comunidade. E do que fala a amarga e popular balzaquiana? Ontem, por exemplo, vinha protestando qualquer coisa sobre um homem bastante incapaz e que nem consegue carregar o próprio telemóvel. Ela, pelos vistos, aconselhou-o a deixar o aparelho a carregar durante a noite, instrução que não satisfez o cavalheiro, o qual quis saber também o que poderia fazer caso o telemóvel não carregasse completamente. “Meta o carregador no cu e leve-o consigo”, diz a mulher que lhe respondeu. A sugestão pareceu-me bastante imaginativa, mas, ainda assim, não fiquei com vontade de experimentar.