Sexta-feira, 12 de Março de 2010
Crónicas do autocarro#20
Não devo, nisto, ser muito diferente de qualquer pessoa normal que, pour épater la bourgeoisie, declara certo gosto pela escatologia, desde que, evidentemente, se trate de uma escatologia blasée à moda de Bukowski ou dos Monty Pitons. Aprecio, obviamente, a escatologia, mas unicamente quando ela não me incomode os sentidos, mormente o olfacto. Esta tarde, porém, algum dos meus companheiros de viagem deu um traque — um traque furtivo e silencioso, traiçoeiro, dotado de um odor bastante podre. Olhei para cada um dos rostos à minha volta e nenhum manifestava culpa ou embaraço, algum sinal fisionómico que traísse a prática da flatulência em espaços fechados de dimensões reduzidas e utilização colectiva. Eram apenas rostos de pessoas regressando a casa cansadas ao fim de uma semana de trabalho. Olhando-os, ninguém diria que ia ali um peidorreiro. Fiquei, ainda assim, inquieto: aquele traque era, sem lugar para qualquer dúvida, obra de uma pessoa enferma.