Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010

Crónicas do autocarro#17

São evidentemente vizinhas do mesmo bairro social, as duas mulheres que conversam lá atrás. Uma delas, a mais loquaz, fala demasiado alto enquanto se queixa de alguém que tinha ido à câmara fazer uma reclamação qualquer. Relativiza o protesto dos vizinhos, incomodados com não sei o quê. Dei pouca atenção à conversa, cumprindo escrupulosamente o objectivo de não me transformar num mirone demasiado óbvio da vida dos outros. Escutei, ainda assim, uma frase que me ficou a retinir na memória: “A coisa mais linda é o desprezo”. Repito para mim próprio que a coisa mais linda é o desprezo, é o desprezo, é o desprezo, e concluo que aprendi também essa lição há algum tempo. Todos os dias me levanto da cama e tento manter a espinha direita enquanto caminho para o local de trabalho, para o convívio com a imbecilidade e a incompetência, o desrespeito, e sei perfeitamente que apenas posso olhar em frente, orgulhoso, porque também eu aprendi, como qualquer morador de um bairro social, que a única forma de lidar com a estupidez do quotidiano está condensada numa só frase, precisamente aquela que ensina que “a coisa mais linda é o desprezo”. Oito horas passam depressa e depois pode-se regressar a casa e dormir em paz.