Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010
Crónicas do autocarro#16
Observar a vida dos outros pode transformar-se num vício. Quando, esta manhã, olhei (o mais dissimuladamente que pude) para a parte de trás do autocarro, as pessoas que lá estavam sentadas tinham quase todas o olhar parado, sem pestanejar, dirigido em diferentes direcções. Talvez fossem pensando na vida, no trabalho que tinham pela frente, nos filhos, nos netos, no cardápio para o jantar, nas prestações por pagar, mas, olhando-as, faziam apenas lembrar autómatos de carne e osso, macilentos, que tivessem sido desligados ou estivessem hibernando até ao momento em que lhes fosse necessário retomar as actividades quotidianas. Havia, ainda assim, uma mulher ruiva dormindo, cabeceando um pouco. Pareceu-me, a ruiva, a pessoa mais viva de todas as que iam na parte de trás do autocarro.