Quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010
Crónicas do autocarro#14
Em certos dias, creio que naqueles em que vejo o sol quando levanto a persiana, dá-me para certas extravagâncias (também trouxe calçadas umas sapatilhas velhas). Resolvi ler hoje mais duas ou três páginas de O Livro de Manuel, de Cortázar, no autocarro. Por coincidência, vim lendo sobre a manhã depois de Andrés ter sodomizado e violado Francine num hotel com vista para o cemitério. Ela, apesar de tudo, declara não se ter sentido aviltada e pergunta: “E tu, Andrés, e tu?”. Felizmente, creio, um homem lendo um livro num autocarro parece ser uma companhia desaconselhável e indesejada. Ninguém se sentou ao meu lado e, por isso, ninguém me surpreendeu lendo páginas onde se podiam ver as palavras “violação” e “sodomia”. Parecerei bizarro, mas os outros passageiros ainda não me olham com rancor ou nojo.