terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Empertigações

Cruzo-me frequentemente com grupos de turistas que rondam a Casa das Artes do Porto (sim, temos uma) sem conseguirem entrar para visitar o edifício que Eduardo Souto de Moura desenhou, discretamente camuflado num bonito jardim entre a Boavista e o Campo Alegre. A casa que já foi cinema, sala de teatro e área de exposições está fechada há muito tempo, já nem sei quanto, a despeito das várias promessas e dos putativos projectos para a sua reabertura. Ninguém, todavia, parece incomodar-se com isso. O nobre, leal e parolo povo do Porto empertiga-se, isso sim, com as corridas de aviões e a falta que a multidão vai fazer. Move-se e ulula contra o imperdoável roubo lisboeta da fundamental tradição aérea da cidade. Na semana passada, vi um casal de franceses tocando à campainha de uma casa vizinha da Casa das Artes, por não terem conseguido, sequer, encontrar a porta do sítio. Foram embora como os outros (com cara de quem desistiu de procurar o Ponto G). Talvez tenham percebido a implícita lição que ali está: o Porto fechou a porta às artes (excepto àquelas que o horrível centralismo paga, na Casa da Música e em Serralves, no Teatro S. João e no CPF). E ninguém se importa, ninguém.