Quinta-feira, 27 de Agosto de 2009

Glorioso bastardo



O sacana em anexo confirma a teoria segundo a qual, para chegar ao Carnegie Hall, é preciso praticar bastante. Em Unglourious Basterds, ao concluir a derradeira tatuagem, diz que essa pode bem ser a sua primeira obra-prima. Fica-se a pensar se não é Tarantino quem fala pela boca do tenente Aldo Raine, o "apache", o que seria um exagero ou, ao menos, excesso de zelo. Afinal, Tarantino já fez, antes, o glorioso Pulp Fiction. Mas este Unglourious Basterds também não é nada mal apanhado.

Terça-feira, 25 de Agosto de 2009

Em primeiro, ainda



Terão, afinal, alguma razão os candidatos do PSD/CDS às autárquicas no Porto. Segundo dados ontem revelados pela candidata do PS, Elisa Ferreira, o Porto tinha, no final de 2008, 216 mil habitantes. Destes, 114 mil recebem subsídios de desemprego, invalidez, velhice, sobrevivência ou de inserção. É um belo retrato da cidade de Rui Rio. Em primeiro, claro. Muito à frente. Morrendo devagarinho, definhando, aviltando-se, vendendo-se baratinho, mas com corridas bem catitas de automóveis antigos e desfiles de Porsches na avenida.

Segunda-feira, 24 de Agosto de 2009

Em primeiro



É bem engraçado dar uma volta pelo Porto nesta altura do ano: em cada esquina há cartazes dos candidatos de uma certa coligação partidária às juntas de freguesia. Aqui "Ramalde em Primeiro", mais adiante "Massarelos em Primeiro", depois "Cedofeita em Primeiro", mais à frente "Lordelo em Primeiro", logo "Foz em Primeiro" - e por aí adiante. Suponho, pois, que estejam ex-aequo. Empatados. Pois.

Facilitismo



Do alto daquilo que de pior tem feito ao país, e apesar do susto que apanhou nas eleições europeias, o supremo engenheiro declarou hoje que a redução das taxas de insucesso escolar não se deve a nenhum tipo de facilitismo. Enganará algumas pessoas - cada vez menos, porém.

Basta termos filhos na escola para ficarmos com uma ideia sobre como funcionam as coisas e sobre como se reduzem as taxas de insucesso (no fundo, e se quiser ser absolutamente sincero, já era assim no tempo em que eu frequentei a escola - com sucesso, pasme-se). Na turma da minha filha, por exemplo, há alunos que não tiveram uma única positiva durante todo o ano lectivo e que, no fim, passaram de ano. Como? Foi o que eu perguntei. E a resposta é tão simples como "pediram recurso das notas" e, depois, esta professora ou aquela deu-lhes positiva. Facilitismo? Claro que não! Os pais daqueles alunos devem ter tido que assinar um requerimento ou um formulário qualquer, coisa que, como sabemos, constitui uma enorme trabalheira.

Não se trata, assim, de insultar o trabalho dos professores, dos pais e dos alunos quando se supõe que a diminuição dos níveis de insucesso se deve a puro e simples laxismo por parte do Estado e da Escola. É, antes, o engenheiro Sócrates que insulta a nossa inteligência de cada vez que se empenha em negar o óbvio.

Lá para Outubro, receio, haveremos de pagar todos por este erro.

Sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

E este é o meu governo-sombra

É isto um desígnio para o país



A "mandatária do PS para a Juventude" (tentemos não analisar a natureza do cargo de um ponto de vista semiótico, por favor), Carolina Patrocínio, afirma, num vídeo que por aí circula, que só gosta de uvas sem grainhas, que prefere fazer batota a perder e que só come cerejas quando a empregada dela lhes tira os caroços. É, enfim, não duvidemos, um desígnio para o país. Sim, eles também têm um sonho: um país em que não se fuma nem bebe, livre de pecado, monitorizado pela matrícula com chip e pelo cartão do cidadão, no qual fiquemos todos formados em Inglês Técnico num domingo de Agosto e em que venha uma criada de servir mastigar-nos o bife antes de o ingerirmos. Eles têm um sonho, eles têm...

Quarta-feira, 19 de Agosto de 2009



Ah!, mas é Agosto e o sol parece, enfim, romper entre a neblina. Deixemos, pois, as coisas enfadonhas (ainda que particularmente estúpidas) e passemos aos pequenos prazeres estivais, à cerveja fresca, à transpiração amena e sem culpa, ao afago do sol, aos belos nacos de humanidade expostos nos areais e, vá lá, ao campeonato do mundo de atletismo.
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Quinta-feira, 13 de Agosto de 2009

Arejar (ou a arte de evitar perguntas incómodas)



Diante de um espelho e de um gravador, o senhor Breton coloca a si mesmo dez perguntas - dez longas perguntas. Não responde a nenhuma. Fuma e estica as pernas, faz flexões e sai para arejar. É, parece-me, uma excelente estratégia para a vida. As perguntas incomodam e desarrumam o quotidiano, mas não precisamos de lhes responder. Quando nos acometem de surpresa, é absolutamente imprescindível ser capaz de aparentar um domínio perfeito da situação. Em vez de correr o risco de lhes responder com hesitações e balbuceios, é sempre preferível assobiar para o lado ou ir apanhar sol.

10ª Pergunta

“Os patos fazem voos deselegantes como certos aviões errados, enquanto as águias têm outro modo de se introduzir no ar. Os patos entram no ar como escravos, modestos e obedientes; enquanto as águias avançam, como certos imperadores na sala de acesso ao poder.
E o poeta deve entrar num verso como a águia entra no ar. E não como o pato".


Em "O Senhor Breton e a entrevista", de Gonçalo M. Tavares

Quarta-feira, 12 de Agosto de 2009

Dúvida gripal



O gabinete de crise pandémica da minha entidade patronal requereu que toda e qualquer viagem para países com mais de 500 casos de gripe A fosse comunicada superiormente, a fim de que o referido gabinete fornecesse aos trabalhadores um kit incluindo máscaras de protecção contra perdigotos e outros miasmas e um medicamento cujo produtor há-de estar a ganhar rios de pasta. Obediente e aterrorizado pela simples menção da sigla H1N1, deixei-me ficar em casa, escondido, encolhido entre os lençóis, mal me atrevendo, sequer, a bisbilhotar a vida dos vizinhos por entre as cortinas. Levanto-me só para ver nos noticiários da televisão as novidades sobre a gripe e, mesmo assim, vi as férias arruinadas pelo anúncio segundo o qual a pátria sã já conta mais de seiscentas vítimas da pestilenta gripe - e eu não sei o que faça agora, se me deixe estar quietinho, se me apresente no local de trabalho comunicando ter estado num país de alto risco, reclamando a correspondente atribuição do higiénico kit e a concessão de alguns dias de quarentena lá mais para Setembro.

Segunda-feira, 10 de Agosto de 2009

Cabeçudos

Final da manhã em Caminha, que as férias de gente modesta devem ser assaz económicas, e não encontro em nenhuma das esplanadas da praça principal o vulto encurvado do doutor Sousa Homem. Supus que estivesse de férias em Moledo, apreciando a franca nortada que chega contornando o Monte Tecla e vindo, pela manhã, comprar os jornais à vila, lendo-os na esplanada e tomando um refresco de groselha. Mas não o descortino entre a multidão de sobrinhas chegadas da capital e do Porto. Foi talvez uma tolice imaginar que o velho doutor ali pudesse estar, apenas mais um entre os que aí estão lagarteando ociosamente como labregos entontecidos pelo sol. Se veio, há-de ter sido mais cedo, quando estes ainda descansavam dos bailes, das romarias e das discotecas, aperitivando agora com martinis o almoço que há-de seguir-se.

Não encontro Sousa Homem, mas, em compensação, há ciganos vendendo camisolas da Lacoste e bolsas Giorgio Armani e a praça de Caminha fervilha dessa sensualidade blasé que têm as burguesas do Porto quando vão de férias para o campo e rebenta com o estardalhaço dos bombos que uns mocetões locais castigam de forma quase ensandecida. Entre os grupos de bombos (reparei, com simpatia, nos Amigos do Binho, entre os quais se contavam gente de mui tenra idade e, pelos vistos, já com talento para a selecção das amizades que duram para a vida inteira) há dois gigantones dançando de modo muito bizarro. Dentro dos gigantones, rodopiando, estão homens pequeninos. Vejo-lhes os pé e parece-me que podem ser adolescentes. Os cabeçudos continuam a rodopiar, o sorriso tolo congelado nos rostos de papel pintado, e eu pergunto-me se não serão assim muitos daqueles que vemos grandes e vaidosos por fora, excessivamente sorridentes e felizes, berrando em comícios e tal: gente inchada com homens muito pequeninos lá dentro.

Sexta-feira, 7 de Agosto de 2009

Leitura para as férias

Bem sei: dir-me-ão que tal coisa, nestas circunstâncias, é mais um insulto do que um elogio. Seja. Suspendo, por instantes, o rigoroso culto da estupidez e dedico-me, por uma vez sem exemplo, a assunto sério, à guisa de sugestão de leitura. Barroco Tropical, o mais recente José Eduardo Agualusa, e Jesusalém, o mais recente Mia Couto, são uma excelente companhia, alimento espiritual de altíssimo gabarito e que deve complementar todas essas coisinhas gostosas que os leitores e as leitoras hão-de estar degustando caso partilharem com este vosso humilde servidor o gosto pelo prândio excessivo e muito guloso. Eles não carecem, decerto, de elogios destes, muito menos vindos de quem vêm, e nem deles tomarão conhecimento, mas fica dito: escreveis para carago.

Quarta-feira, 5 de Agosto de 2009

Geometria variável



1. O que é então o medo?
O Medo é a sensação provocada pela proximidade do Outro

2. Como pode acabar o medo?
Eliminando o Outro ou afastando-o

3. Mas é o Outro que nos muda

4. Sem o Outro (vento, homens, mulheres, animais, coisas) eu permaneço imóvel e igual

5. Como o tempo prossegue, permanecer imóvel é avançar na direcção desagradável. Não mudar não é ser imortal, é envelhecer.

6. Aproveita, então o medo para mudar; seguindo a direcção desejada (...)


Excerto de "O Outro (II)", em "O Senhor Swedenborg e as investigações geométricas". de Gonçalo M. Tavares

Terça-feira, 4 de Agosto de 2009

Plano de contingência



Procurando acompanhar os ares do tempo, os órgãos de gestão do Teatro Anatómico acabam de aprovar, por maioria qualificada, o Plano de Contingência para as maleitas da época. Ignorámos, é bem verdade, a estupidificante gripe com que os OCS se excitam, mas o nosso plano, que é o melhor de todos quantos já se apresentaram, incluindo o da Liga de Clubes e o dos Industriais de Matraquilhos, prevê surtos estivais de herpes labial, dores musculares, episódios de infecção urinária, urticária, queimaduras solares, queda de cabelo, ocorrência de flatos, congestão nasal e overdose de Manuel Ferreira Leite. Em todos os casos atrás elencados, bem como naqueles que aqui se não referiram, o colégio de sábios e a comissão científica encarregados do Plano de Contingência aconselham os eventualmente achacados a fazerem vida normal e a esperarem que a coisa passe.